224, Casa 3

224, Casa 3

A dor que sinto destruiu a casa da minha infância. As memórias, os cheiros e as histórias, desvanecem-se com aquele lugar que sempre considerei meu, por pertencer a eles. Mas meu, nunca foi!

Os objetos dos mortos podem trazer-nos conforto durante o luto. São pequenos tesouros carregados de emoções, que nos permitem reviver o passado, através de rituais de memória.  Guardamos heranças — conselhos, momentos, risadas e abraços que ficaram por dar.

Na série fotográfica 224, Casa 3, o número da morada dos meus avós, partilho o luto por eles, as memórias dos momentos passados, questionando como um lugar pode ser o espelho de nós próprios [nosso eu (self)].  A casa, enquanto espaço afetivo, constrói-se com histórias e pessoas. Pensar no seu fim é como matar uma parte de nós. É como se fechássemos a gaveta das lembranças, tal como fechamos, para sempre, a porta daquela casa. “O self”  constrói-se com camadas de experiências e memórias que, em casa, ganham um cenário particular, tornando-se inseparáveis dos objetos e espaços que os acolhem. Quando perdemos esse espaço, é como se fôssemos obrigados a abandonar uma parte do que fomos.

Quando a minha avó Maria morreu, dez anos após a morte do meu avô Mário, fomos obrigados a devolver a casa onde viveram mais de setenta anos. A história tinha chegado ao fim. Sem vida, aquele local tornou-se um símbolo de ausência. A pequena casa, inserida numa ilha social, que antes estava rodeada de mexericos, emoções, histórias e gargalhadas, agora tornou-se num lugar que invoca um profundo sentimento de vazio.

A minha Maria morreu!

Está na hora de arrumar os noventa anos de vida que ela guardava naquela casa minúscula, velha e desajeitada, mas muito estimada.

Fotografar é perpetuar um momento eterno. Os eventos terminam, mas a imagem prolonga-se. Despejar a casa de um ente querido é tanto ou mais violento, que a última pá de terra que cai sob a madeira do caixão. É um momento que fica para sempre. E, apesar de termos de lidar com a situação, isso não minimiza a nossa dor. 

Fotografá-la é sentirmos um conflito permanente; é ter medo de que as memórias desapareçam. Querer eternizar o último adeus, sabendo a dor que provoca é uma auto agressão e, simultaneamente, terapêutico.

Durante as várias horas que estive a esvaziar a casa, captei cada momento como se fosse uma despedida. Fotografar esse processo, permitiu-me comunicar todas as emoções, através de cada divisão, objecto e em todas as paredes da casa preenchidas a papel de parede, humidade e teias de aranha. 

O projeto expositivo 224, Casa 3, para além das fotografias, também envolve outros objectos recuperados e permanentemente enraizados na família. Nomeadamente o  fogão do enxoval, a moldura com a fotografia das netas encontrada no “aido”, cheia de fungos, ou a faca que o meu pai trouxe da guerra colonial, que servia para cortar as couves das  galinhas, onde mal se lê gravado no ferro ULTRAMAR. Por último, também é apresentado o passepartout da árvore genealógica, que esteve sempre na “salita”, com as fotografias das pessoas mais queridas, que em nada cumpria com as normas genealógicas. 

Na nossa família, o mais importante é o vínculo emocional e, por isso, criei  a árvore geneemocional. Trata-se de uma peça na qual estão todas as pessoas que a união dos meus avós trouxe à minha vida. 

O luto é considerado um processo que transforma o “self” ao ser confrontado com a perda. Para Sigmund Freud, essa transformação ocorre na medida em que o indivíduo se desliga emocionalmente do que foi perdido, reorganizando o “self” para uma nova realidade. Este processo redefine a identidade, uma vez que a perda altera as relações e identificações que sustentam o “self”. Portanto, não é apenas sobre a ausência do outro, mas sobre a maneira como o “self” se reestrutura e se redescobre após a ausência.

A morte sempre existiu e sempre existirá, mas será sempre um tema tão complexo de vivenciar?

Ópera Selvagem

As óperas de Pequim surgiram no final do século 18 (XVIII), desde de logo os atores utilizavam maquilhagens coloridas e com expressões fortes, mas sem máscaras. Contudo, foi em 1894 que surgiram as máscaras, hoje associadas a este espetáculo.

Um dia um homem (Gui), enquanto visitava um templo, surgiu-lhe a ideia de fazer um molde de um rosto em gesso. Depois de o deixar secar ao sol, decidiu pintá-la igual às maquilhagens usadas na ópera de Pequim, para que fossem usadas como substitutas das maquilhagens.

Hoje é patrimônio cultural intangível da China. 

Podemos assim dizer que as máscaras de ópera de Pequim se tornaram num objecto técnico. Ele foi idealizado e desenhado para se tornar apto a uma função. Contudo, hoje em dia, os seus próprios criadores/artísticas costumam preencher as paredes das suas lojas/ateliers com estas máscaras. Colocando-as num ponto de vista comercial e turístico, por assim dizer. Assim deparamo-nos desde já com uma nova utilidade a este objeto enquadrado num sentido artístico. 

Ao utilizar este objecto na minha sequência de imagens, estou a permitir que este se torne num objecto selvagem, visto que está a ser utilizado num contexto oposto à sua função. Ora sendo símbolo de uma cultura, (e embora numa primeira instância, parece-nos que este objeto desempenha a sua função original, enquanto mascara) a sua intenção enquanto símbolo da ópera humana, não é aqui representada. Há no entanto um funcionamento mínimo. Ou seja, a sua tecnicidade ainda está ativa, pois continua a ser uma máscara, mas funciona de outra forma, com outro propósito.

Hysterie Conteporaine

A dor que sinto, destruiu a casa da minha infância. As memórias, os cheiros e as histórias, desvanecem-se com aquele lugar que sempre considerei meu, por pertencer a eles. Mas meu, nunca foi! Os objetos dos mortos podem trazer-nos conforto durante o luto. São pequenos tesouros carregados de emoções, que nos permitem reviver o passado, através de rituais de memória. Guardamos heranças — conselhos, momentos, risadas e abraços que ficaram por dar.

Na série fotográfica 224, Casa 3, o número da morada dos meus avós, partilho o luto por eles, as memórias dos momentos passados, questionando como um lugar pode ser o espelho de nós próprios [nosso eu (self)]. A casa, enquanto espaço afetivo, constrói-se com histórias e pessoas. Pensar no seu fim é como matar uma parte de nós. É como se fechássemos a gaveta das lembranças, tal como fechamos, para sempre, a porta daquela casa. “O self” constrói-se com camadas de experiências e memórias que, em casa, ganham um cenário particular, tornando-se inseparáveis dos objetos e espaços que os acolhem. Quando perdemos esse espaço, é como se fôssemos obrigados a abandonar uma parte do que fomos. Quando a minha avó Maria morreu, dez anos após a morte do meu avô Mário, fomos obrigados a devolver a casa onde viveram mais de setenta anos. A história tinha chegado ao fim. Sem vida, aquele local tornou-se um símbolo de ausência. A pequena casa, inserida numa ilha social, que antes estava rodeada de mexericos, emoções, histórias e gargalhadas, agora tornou-se num lugar que invoca um profundo sentimento de vazio. A minha Maria morreu! Está na hora de arrumar os noventa anos de vida que ela guardava naquela casa minúscula, velha e desajeitada, mas muito estimada. Fotografar é perpetuar um momento eterno. Os eventos terminam, mas a imagem prolonga-se. Despejar a casa de um ente querido é tanto ou mais violento, que a última pá de terra que cai sob a madeira do caixão. É um momento que fica para sempre. E, apesar de termos de lidar com a situação, isso não minimiza a nossa dor. Fotografá-la é sentirmos um conflito permanente; é ter medo de que as memórias desapareçam. Querer eternizar o último adeus, sabendo a dor que provoca é uma auto agressão e, simultaneamente, terapêutico. Durante as várias horas que estive a esvaziar a casa, captei cada momento como se fosse uma despedida. Fotografar esse processo, permitiu-me comunicar todas as emoções, através de cada divisão, objecto e em todas as paredes da casa preenchidas a papel de parede, humidade e teias de aranha. O projeto expositivo 224, Casa 3, para além das fotografias, também envolve outros objectos recuperados e permanentemente enraizados na família. Nomeadamente o fogão do enxoval, a moldura com a fotografia das netas encontrada no “aido”, cheia de fungos, ou a faca que o meu pai trouxe da guerra colonial, que servia para cortar as couves para dar às galinhas, onde mal se lê gravado no ferro ULTRAMAR. Por último, também é apresentado o passepartout da árvore genealógica, que esteve sempre na “salita”, com as fotografias das pessoas mais queridas, que em nada cumpria com as normas genealógicas. Na nossa família, o mais importante é o vínculo emocional e, por isso, criei a árvore geneemocional. Trata-se de uma peça na qual estão todas as pessoas que a união dos meus avós trouxe à minha vida. O luto é considerado um processo que transforma o “self” ao ser confrontado com a perda. Para Sigmund Freud, essa transformação ocorre na medida em que o indivíduo se desliga emocionalmente do que foi perdido, reorganizando o “self” para uma nova realidade. Este processo redefine a identidade, uma vez que a perda altera as relações e identificações que sustentam o “self”. Portanto, não é apenas sobre a ausência do outro, mas sobre a maneira como o “self” se reestrutura e se redescobre após a ausência. A morte sempre existiu e sempre existirá, mas será sempre um tema tão complexo de vivenciar?

Delírio Público

É um delírio se pensarmos que, mesmo com o progresso da sociedade, alguns dos sintomas associados à histeria ainda se encontram presentes na atualidade? É certo que com o evoluir da sociedade, muitas características histéricas adquiriram significados diferentes e aparecem de outras formas. Mas apesar de existir um maior acesso à informação, a forma como os transtornos psíquicos são hoje compreendidos é singular. Existe um maior conhecimento dos diferentes transtornos psíquicos, e das suas características principais, mas a banalização de expressões quotidianas demonstram que nem sempre as doenças ou sintomas mencionados são realmente compreendidos.   As fronteiras entre o visível e o invisível permanecem difusas.

Há um maior conhecimento das várias doenças psíquicas e a expressão “louco”, já não é suficiente. A necessidade de ser mais específico é uma preocupação, mas afinal, o que se pretende com estas palavras? O interesse pela loucura torna-se público quando se relaciona com o lado mais obscuro e curioso do ser humano, que se deixa seduzir por imagens que mostram algum tipo de distúrbio. A loucura pode fascinar, é oculta e acarreta muita curiosidade e desconhecimento.  O louco é aquele que perdeu a consciência, que já não possui competências sociais, é doente e necessita de tratamento. Contudo, na realidade um transtorno mental não se pode designar desta forma. Trata-se de algo muito mais complexo.  É interessante verificar que apesar de se conhecer o terno “loucura” há vários séculos, os limites éticos de lidar com a dor do outro continuam ainda invisíveis. Contudo, o voyeurismo continua presente e a intimidade do doente, muitas vezes, é quebrada em troca da aguçada curiosidade do outro. Neste jogo de sombras, quando é que o invisível se torna objeto de fascínio e o que deveria ser compreendido permanece oculto, resta a pergunta: o que realmente vemos quando olhamos para a loucura?