Sobre

Eduarda Pinto, nasceu em 1989, é fotógrafa e vive no Porto.

O seu interesse pela arte manifestou-se desde cedo, mas foi a frequentar a Escola Secundária Artística Soares dos Reis, no curso de comunicação audiovisual com especialização em fotografia, que encontrou a paixão por esta área.

Mais tarde concluiu a licenciatura em Cinema, na Universidade da Beira Interior, onde aprofundou os seus conhecimentos na área da imagem. Posteriormente concluiu o Mestrado em Artes Plásticas, na Faculdade de Belas Artes do Porto, no qual continuou a usar a fotografia na sua prática artística.

Ao longo dos anos desenvolveu um trabalho que se destaca pela utilização tanto da fotografia digital como analógica. Esta dualidade técnica permite-lhe uma maior profundidade na abordagem visual e conceptual dos seus temas de investigação.

Os seus projetos focam-se, essencialmente, em questões relacionadas com a saúde mental, a memória, a histeria, o arquivo e a ciência, áreas que são centrais à sua pesquisa artística.
Através da sua prática, explora o poder da imagem na criação de narrativas visuais que questionam o corpo, a mente e a sua relação com o tempo e o espaço. O corpo e a memória, em particular, são temas recorrentes no seu trabalho, sendo abordados de forma a revelar as fragilidades e as tensões emocionais associadas à experiência humana. O conceito de arquivo é igualmente importante na sua pesquisa, servindo como um ponto de interseção entre a história pessoal e coletiva, enquanto a ciência surge como um campo de influência na forma como aborda a fotografia como processo de observação e análise. Encara a fotografia como uma forma de comunicação, de terapia e meio de consciencialização.

Contactos

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Exposições realizadas

224, Casa 3 O.Estúdio | 2024
Fantasmas de Salpêtrière Exposição Colectiva | Plano B| 2023
Ponto de Contacto 2022
Da Transferência ao Processo de Cura 2022
Banho Turco Exposição Colectiva | Plano B | 2022
Lobo Temporal 2020
Mise-en-scène Fundação Escultor José Rodrigues | 2013

Ópera Selvagem

As óperas de Pequim surgiram no final do século 18 (XVIII), desde de logo os atores utilizavam maquilhagens coloridas e com expressões fortes, mas sem máscaras. Contudo, foi em 1894 que surgiram as máscaras, hoje associadas a este espetáculo.

Um dia um homem (Gui), enquanto visitava um templo, surgiu-lhe a ideia de fazer um molde de um rosto em gesso. Depois de o deixar secar ao sol, decidiu pintá-la igual às maquilhagens usadas na ópera de Pequim, para que fossem usadas como substitutas das maquilhagens.

Hoje é patrimônio cultural intangível da China. 

Podemos assim dizer que as máscaras de ópera de Pequim se tornaram num objecto técnico. Ele foi idealizado e desenhado para se tornar apto a uma função. Contudo, hoje em dia, os seus próprios criadores/artísticas costumam preencher as paredes das suas lojas/ateliers com estas máscaras. Colocando-as num ponto de vista comercial e turístico, por assim dizer. Assim deparamo-nos desde já com uma nova utilidade a este objeto enquadrado num sentido artístico. 

Ao utilizar este objecto na minha sequência de imagens, estou a permitir que este se torne num objecto selvagem, visto que está a ser utilizado num contexto oposto à sua função. Ora sendo símbolo de uma cultura, (e embora numa primeira instância, parece-nos que este objeto desempenha a sua função original, enquanto mascara) a sua intenção enquanto símbolo da ópera humana, não é aqui representada. Há no entanto um funcionamento mínimo. Ou seja, a sua tecnicidade ainda está ativa, pois continua a ser uma máscara, mas funciona de outra forma, com outro propósito.

Hysterie Conteporaine

A dor que sinto, destruiu a casa da minha infância. As memórias, os cheiros e as histórias, desvanecem-se com aquele lugar que sempre considerei meu, por pertencer a eles. Mas meu, nunca foi! Os objetos dos mortos podem trazer-nos conforto durante o luto. São pequenos tesouros carregados de emoções, que nos permitem reviver o passado, através de rituais de memória. Guardamos heranças — conselhos, momentos, risadas e abraços que ficaram por dar.

Na série fotográfica 224, Casa 3, o número da morada dos meus avós, partilho o luto por eles, as memórias dos momentos passados, questionando como um lugar pode ser o espelho de nós próprios [nosso eu (self)]. A casa, enquanto espaço afetivo, constrói-se com histórias e pessoas. Pensar no seu fim é como matar uma parte de nós. É como se fechássemos a gaveta das lembranças, tal como fechamos, para sempre, a porta daquela casa. “O self” constrói-se com camadas de experiências e memórias que, em casa, ganham um cenário particular, tornando-se inseparáveis dos objetos e espaços que os acolhem. Quando perdemos esse espaço, é como se fôssemos obrigados a abandonar uma parte do que fomos. Quando a minha avó Maria morreu, dez anos após a morte do meu avô Mário, fomos obrigados a devolver a casa onde viveram mais de setenta anos. A história tinha chegado ao fim. Sem vida, aquele local tornou-se um símbolo de ausência. A pequena casa, inserida numa ilha social, que antes estava rodeada de mexericos, emoções, histórias e gargalhadas, agora tornou-se num lugar que invoca um profundo sentimento de vazio. A minha Maria morreu! Está na hora de arrumar os noventa anos de vida que ela guardava naquela casa minúscula, velha e desajeitada, mas muito estimada. Fotografar é perpetuar um momento eterno. Os eventos terminam, mas a imagem prolonga-se. Despejar a casa de um ente querido é tanto ou mais violento, que a última pá de terra que cai sob a madeira do caixão. É um momento que fica para sempre. E, apesar de termos de lidar com a situação, isso não minimiza a nossa dor. Fotografá-la é sentirmos um conflito permanente; é ter medo de que as memórias desapareçam. Querer eternizar o último adeus, sabendo a dor que provoca é uma auto agressão e, simultaneamente, terapêutico. Durante as várias horas que estive a esvaziar a casa, captei cada momento como se fosse uma despedida. Fotografar esse processo, permitiu-me comunicar todas as emoções, através de cada divisão, objecto e em todas as paredes da casa preenchidas a papel de parede, humidade e teias de aranha. O projeto expositivo 224, Casa 3, para além das fotografias, também envolve outros objectos recuperados e permanentemente enraizados na família. Nomeadamente o fogão do enxoval, a moldura com a fotografia das netas encontrada no “aido”, cheia de fungos, ou a faca que o meu pai trouxe da guerra colonial, que servia para cortar as couves para dar às galinhas, onde mal se lê gravado no ferro ULTRAMAR. Por último, também é apresentado o passepartout da árvore genealógica, que esteve sempre na “salita”, com as fotografias das pessoas mais queridas, que em nada cumpria com as normas genealógicas. Na nossa família, o mais importante é o vínculo emocional e, por isso, criei a árvore geneemocional. Trata-se de uma peça na qual estão todas as pessoas que a união dos meus avós trouxe à minha vida. O luto é considerado um processo que transforma o “self” ao ser confrontado com a perda. Para Sigmund Freud, essa transformação ocorre na medida em que o indivíduo se desliga emocionalmente do que foi perdido, reorganizando o “self” para uma nova realidade. Este processo redefine a identidade, uma vez que a perda altera as relações e identificações que sustentam o “self”. Portanto, não é apenas sobre a ausência do outro, mas sobre a maneira como o “self” se reestrutura e se redescobre após a ausência. A morte sempre existiu e sempre existirá, mas será sempre um tema tão complexo de vivenciar?

Delírio Público

É um delírio se pensarmos que, mesmo com o progresso da sociedade, alguns dos sintomas associados à histeria ainda se encontram presentes na atualidade? É certo que com o evoluir da sociedade, muitas características histéricas adquiriram significados diferentes e aparecem de outras formas. Mas apesar de existir um maior acesso à informação, a forma como os transtornos psíquicos são hoje compreendidos é singular. Existe um maior conhecimento dos diferentes transtornos psíquicos, e das suas características principais, mas a banalização de expressões quotidianas demonstram que nem sempre as doenças ou sintomas mencionados são realmente compreendidos.   As fronteiras entre o visível e o invisível permanecem difusas.

Há um maior conhecimento das várias doenças psíquicas e a expressão “louco”, já não é suficiente. A necessidade de ser mais específico é uma preocupação, mas afinal, o que se pretende com estas palavras? O interesse pela loucura torna-se público quando se relaciona com o lado mais obscuro e curioso do ser humano, que se deixa seduzir por imagens que mostram algum tipo de distúrbio. A loucura pode fascinar, é oculta e acarreta muita curiosidade e desconhecimento.  O louco é aquele que perdeu a consciência, que já não possui competências sociais, é doente e necessita de tratamento. Contudo, na realidade um transtorno mental não se pode designar desta forma. Trata-se de algo muito mais complexo.  É interessante verificar que apesar de se conhecer o terno “loucura” há vários séculos, os limites éticos de lidar com a dor do outro continuam ainda invisíveis. Contudo, o voyeurismo continua presente e a intimidade do doente, muitas vezes, é quebrada em troca da aguçada curiosidade do outro. Neste jogo de sombras, quando é que o invisível se torna objeto de fascínio e o que deveria ser compreendido permanece oculto, resta a pergunta: o que realmente vemos quando olhamos para a loucura?

224, Casa 3

A dor que sinto destruiu a casa da minha infância. As memórias, os cheiros e as histórias, desvanecem-se com aquele lugar que sempre considerei meu, por pertencer a eles. Mas meu, nunca foi!

Os objetos dos mortos podem trazer-nos conforto durante o luto. São pequenos tesouros carregados de emoções, que nos permitem reviver o passado, através de rituais de memória.  Guardamos heranças — conselhos, momentos, risadas e abraços que ficaram por dar.

Na série fotográfica 224, Casa 3, o número da morada dos meus avós, partilho o luto por eles, as memórias dos momentos passados, questionando como um lugar pode ser o espelho de nós próprios [nosso eu (self)].  A casa, enquanto espaço afetivo, constrói-se com histórias e pessoas. Pensar no seu fim é como matar uma parte de nós. É como se fechássemos a gaveta das lembranças, tal como fechamos, para sempre, a porta daquela casa. “O self”  constrói-se com camadas de experiências e memórias que, em casa, ganham um cenário particular, tornando-se inseparáveis dos objetos e espaços que os acolhem. Quando perdemos esse espaço, é como se fôssemos obrigados a abandonar uma parte do que fomos.

Quando a minha avó Maria morreu, dez anos após a morte do meu avô Mário, fomos obrigados a devolver a casa onde viveram mais de setenta anos. A história tinha chegado ao fim. Sem vida, aquele local tornou-se um símbolo de ausência. A pequena casa, inserida numa ilha social, que antes estava rodeada de mexericos, emoções, histórias e gargalhadas, agora tornou-se num lugar que invoca um profundo sentimento de vazio.

A minha Maria morreu!

Está na hora de arrumar os noventa anos de vida que ela guardava naquela casa minúscula, velha e desajeitada, mas muito estimada.

Fotografar é perpetuar um momento eterno. Os eventos terminam, mas a imagem prolonga-se. Despejar a casa de um ente querido é tanto ou mais violento, que a última pá de terra que cai sob a madeira do caixão. É um momento que fica para sempre. E, apesar de termos de lidar com a situação, isso não minimiza a nossa dor. 

Fotografá-la é sentirmos um conflito permanente; é ter medo de que as memórias desapareçam. Querer eternizar o último adeus, sabendo a dor que provoca é uma auto agressão e, simultaneamente, terapêutico.

Durante as várias horas que estive a esvaziar a casa, captei cada momento como se fosse uma despedida. Fotografar esse processo, permitiu-me comunicar todas as emoções, através de cada divisão, objecto e em todas as paredes da casa preenchidas a papel de parede, humidade e teias de aranha. 

O projeto expositivo 224, Casa 3, para além das fotografias, também envolve outros objectos recuperados e permanentemente enraizados na família. Nomeadamente o  fogão do enxoval, a moldura com a fotografia das netas encontrada no “aido”, cheia de fungos, ou a faca que o meu pai trouxe da guerra colonial, que servia para cortar as couves das  galinhas, onde mal se lê gravado no ferro ULTRAMAR. Por último, também é apresentado o passepartout da árvore genealógica, que esteve sempre na “salita”, com as fotografias das pessoas mais queridas, que em nada cumpria com as normas genealógicas. 

Na nossa família, o mais importante é o vínculo emocional e, por isso, criei  a árvore geneemocional. Trata-se de uma peça na qual estão todas as pessoas que a união dos meus avós trouxe à minha vida. 

O luto é considerado um processo que transforma o “self” ao ser confrontado com a perda. Para Sigmund Freud, essa transformação ocorre na medida em que o indivíduo se desliga emocionalmente do que foi perdido, reorganizando o “self” para uma nova realidade. Este processo redefine a identidade, uma vez que a perda altera as relações e identificações que sustentam o “self”. Portanto, não é apenas sobre a ausência do outro, mas sobre a maneira como o “self” se reestrutura e se redescobre após a ausência.

A morte sempre existiu e sempre existirá, mas será sempre um tema tão complexo de vivenciar?